Primeira reunião de negociação com a APICCAPS do CCT 2026 no Calçado e Marroquinaria: inflação não chega para pagar profissões.
A FESETE e os seus sindicatos afiliados, como o SNPIC, reuniram hoje, dia 10-02-2026, com a APICCAPS para iniciar a revisão do Contrato Coletivo de Trabalho (CCT). Infelizmente, a posição patronal foi clara: consideram a nossa proposta “irrealista” e pressionam para que a revisão salarial fique limitada a valores próximos da inflação (cerca de 2%).
Para o SNPIC, isto não é apenas uma divergência de números — é uma escolha sobre o presente e o futuro da nossa indústria.
- A APICCAPS classificou a proposta sindical como “impensável”, sugerindo reformulação para haver condições de negociação.
- Argumentam com a baixa inflação prevista, ignorando a perda de poder de compra acumulada e o facto de o Salário Mínimo Nacional (SMN) já ser de 920€.
- A próxima reunião ficou agendada para o dia 18 de fevereiro.
✋ O Valor das Tuas Mãos
"Sapatos de luxo não se fazem sozinhos."
Sabemos o esforço que exige estar numa linha de montagem, na costura ou no corte. São horas de foco, exigência física e perícia. As vossas mãos transformam pele em peças de arte que são vendidas por centenas de euros nas montras internacionais.
A pergunta que fica é: Se o produto final tem qualidade de excelência, porque é que o salário de quem o faz tem de ser "mínimo"? O orgulho no "Made in Portugal" tem de se ver também no recibo de vencimento.
⚠️ O Perigo Real, que precisas de saber: O Achatamento Salarial
O SNPIC regista a posição patronal com enorme preocupação. Quando a atualização das tabelas fica próxima da inflação (2%), num contexto em que o Salário Mínimo já atingiu os 920€, o resultado é o achatamento salarial.
Com o SMN atualmente em 920€, se as tabelas não forem corrigidas proporcionalmente, as categorias e a antiguidade deixam de contar.
A consequência é clara e já se sente: O setor transformou-se numa indústria de “salário único”, onde profissionais qualificados (como costureiras de 1.ª, cortadores ou técnicos de componentes) ganham o mesmo que quem acaba de entrar na fábrica.

🧮 A Matemática não engana
A APICCAPS "propõe" cerca de 2% de aumento. Mas o Salário Mínimo subiu de 870€ (2025) para os atuais 920€ (2026), uma subida de quase 6%.
O que isto significa? Se o teu salário subir apenas 2%, estás a perder terreno. Quem ganhava 100€ acima do mínimo há 5 anos, hoje arrisca-se a ganhar exatamente o mesmo que o salário mínimo nacional. Isto não é negociar, é desvalorizar.
📈 Realidade do Setor vs. Narrativa da Crise
A APICCAPS diz que a nossa proposta é "irrealista". Mas será irrealista exigir dignidade num setor que continua a exportar qualidade e luxo?
O calçado português não compete pelo preço baixo, compete pela excelência e pela marca "Made in Portugal". Se as empresas vendem sapatos caros ao estrangeiro baseadas na "Arte Portuguesa", não podem pagar preços de saldo a quem executa essa arte. Lucro sem partilha não é negócio, é exploração.
As empresas queixam-se diariamente da dificuldade em contratar jovens ou reter trabalhadores. O SNPIC responde com clareza: não há falta de trabalhadores, há falta de salários atrativos. Ninguém fica numa profissão exigente e técnica se puder ganhar o mesmo num emprego sem responsabilidade.
Tabelas Salariais Propostas para Negociação - FESETE (Rejeitado pela APICCAPS) (Resumo)
A nossa proposta valoriza a carreira. Abaixo, apresentamos os valores para Calçado, Componentes e Artigos de Pele:
| Grupo / Categoria Exemplo | Proposta 2026 (€) |
|---|---|
| PRODUÇÃO | |
| Grupo I (Encarregado Geral) | 1.500,00 € |
| Grupo II (Técnico de Calçado) | 1.265,00 € |
| Grupo III (Chefe Secção / Modelador) | 1.150,00 € |
| Grupo IV (Chefe de Linha / Cortador 1.ª) | 1.100,00 € |
| Grupo V (Costureira 1.ª / Gaspeadeira) | 1.050,00 € |
| Grupo VIII (Operador Indiferenciado) | 1.020,00 € |
| ADMINISTRATIVOS | |
| Grupo I (Chefe de Escritório / D. Recursos Humanos) | 1.500,00 € |
| Grupo IV (Técnico Administrativo / Caixeiro) | 1.100,00 € |
| Grupo VII (Telefonista / Rececionista) | 1.030,00 € |
* Proposta com efeitos a 1 de janeiro de 2026.
📊 Clica aqui para ver a grelha salarial completa

♟️ Qual deve ser a nossa estratégia e a tua, enquanto trabalhador(a)?
A melhor forma de vencer é estar preparado antes da batalha. O SNPIC não vai para a mesa de negociações apenas para "pedir"; vamos para exigir com factos, números e razão.
Mas falta-nos a peça mais importante: TU. Sem a força dos trabalhadores unidos, os melhores argumentos perdem força. A tua sindicalização e opinião são a nossa arma secreta para dobrar a intransigência patronal.
O que está em causa (mesmo se não fores sócio)?
O SNPIC insiste num ponto decisivo: a negociação coletiva não afeta apenas associados. Através das Portarias de Extensão, o que a FESETE e os seus sindicatos assinarem poderá vir a ser lei para todo o setor em Portugal.
Isto aplica-se a quem faz sapatos, mas também a quem trabalha nos Componentes (solas, saltos, formas) e na Marroquinaria (malas e carteiras). Somos uma única força de trabalho.
"Será que os profissionais desta arte, que cortam, cosem e acabam o calçado português, têm de se resignar a ganhar o salário mínimo toda a vida?"
Deixamos-te estas questões:
- Achas justo que a tua categoria e a tua antiguidade valham cada vez menos?
- Achas digno que o setor forme profissionais para depois os manter colados ao mínimo?
- O que sugeres como prioridade: salários base ou subsídios?
A Tua Voz Conta!
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